Assembleia Legislativa

sexta-feira, 29 de março de 2019
Obra será lançada pela Funarte e Projeto Portinari até o primeiro semestre. Metade da tiragem será doada a bibliotecas públicas


“Os retirantes vêm vindo com trouxas e embrulhos/ Vêm das terras secas e escuras; pedregulhos/ Doloridos como fagulhas de carvão aceso/ Corpos disformes, uns panos sujos/ Rasgados e sem cor, dependurados/ Homens de enorme ventre bojudo/ Mulheres com trouxas caídas para o lado/ Pançudas, carregando ao colo um garoto/ Choramingando, remelento/ Mocinhas de peito duro e vestido roto/ Velhas trôpegas marcadas pelo tempo”

As palavras do poema Deus de violência criam imagens fortes diante dos olhos do leitor. É possível imaginar cada uma das personagens, com seus corpos fora da ordem, carregando no lombo a miséria implacável provocada pela seca. De tão visuais, os vocábulos mais parecem pinceladas que formam um quadro de delicado impacto social. A relação entre pintura e literatura dessa obra não é à toa. O poema em questão é de autoria de Cândido Portinari (1903-1962), o grandioso artista plástico que deu forma e cores às mazelas dos brasileiros em telas e murais, como os painéis icônicos Guerra e Paz, expostos na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.

Mesmo após 55 anos da primeira publicação pela Editora Olympio, a produção poética de Portinari soa como novidade. Ainda é uma faceta pouco conhecida de um dos maiores artistas brasileiros do século 20. Agora, ganha reedição comemorativa ainda neste semestre, em uma parceria entre o Projeto Portinari, que completa 40 anos de atividades, e a Fundação Nacional de Artes (Funarte), instituição vinculada ao Ministério da Cidadania.

“A obra poética de meu pai é um espelho da obra plástica. É menos conhecida do público brasileiro porque as duas edições eram limitadas, perdendo-se, com o tempo, essa memória. Acredito que os poemas complementam o legado plástico e se constituem como uma fonte de informação para o maior entendimento da obra”, avalia o professor, matemático e guardião do acervo Portinari, João Candido.

“O filho menor está morrendo/ As filhas maiores soluçam forte/ Caem lágrimas de pedra. Mãe querendo/ Levar menino morto: feio de sofrer, cara da morte”

Edição Sedutora

Com o título Poemas de Portinari, a edição da Funarte nasce do sonho de pôr em diálogo a produção poética com a plástica. Na época, o criador não quis nenhuma espécie de ilustração de sua obra porque não queria se aproveitar da fama de pintor para impulsionar o surgimento do poeta. Sobre essa postura ética, poetizou: “Quanta coisa eu contaria se eu soubesse da língua o que sei das cores”.

“Agora, pedimos licença a Portinari para poeticamente desobedecê-lo. Os poemas estão relacionados com a sua produção iconográfica”, revela o gerente de Edições da Funarte, Oswaldo Carvalho, que está extasiado com a editoração do livro: “Está muito caprichada e já foi encaminhada à gráfica. Terá uma tiragem de 2 mil exemplares (uma metade será doada a bibliotecas pública e a outra vendida a R$ 50)”, adianta.

As almas penadas, os brejos e as matas virgens/ Acompanham-me como o espantalho/Que é o meu autorretrato/ Todas as coisas frágeis e pobres/ Se parecem comigo”

Livro Fulgurante

Coordenadora do Núcleo de Arte-educação e do Livro da Fundação Portinari, Suely Avelar acalentava há tempos essa possibilidade, quando as pesquisadoras de literatura Patrícia Ferro e Letícia Porto procuram o Projeto Portinari para propor uma nova edição, que foi aceita imediatamente pela Funarte. “Vamos publicar nesta edição manuscritos de poemas, alguns com rabiscos de correções e um desenho ao lado sobre os retirantes, além de um datilografado em homenagem à poetisa norte-americana Emily Dickson”, adianta Suely.

Os prefácios originais de Manuel Bandeira e Antonio Calado foram preservados, além da organização em três lotes de poemas: O menino e o povoado (sobre as reminiscências na cidade Brodósqui/SP), Aparições (mais subjetivos e existências) e A revolta (de cunho social). Coube ao presidente da Academia Brasileira de Letras e um dos poetas mais intrigantes de sua geração, Marco Lucchessi, prefaciar essa nova edição.

“É um livro fulgurante. As imagens não ilustram ou estão subordinadas ao poema. Ao contrário, um ilumina o outro. A poesia de Portinari traz uma digital específica, tem antenas muito sensíveis para o seu tempo e a percepção que do escândalo da injustiça social se faz arte apontando não só para a denúncia em si, mas para a poética contida nessa denúncia”, avalia.

“Saí das águas do mar/ E nasci no cafezal de Terra roxa/ Passei a infância no meu povoado arenoso/Andei de bicicleta e em Cavalo em pelo/ Tive medos/E sonhei/ Viajei no espaço. Fui à luta primeiro do que o Sputnik” 

Poesia antes de dormir

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