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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Pare para lembrar de alguma peça artesanal que já te encantou mundo afora. Lembre de outra que você viu na casa de algum conhecido e que fez a diferença. Agora lembre daquele xale que sua avó usava bastante e que você achava cafona... Talvez tenha um bem parecido em um brechó importante em Londres ou Amsterdã ou essa peça artesanal que fez a diferença sem muita pompa esteja agora sendo vendida na TOK STOK ou Casa Cor em São Paulo.

O artesanato hoje é tratado como produto “tipo exportação” e não mais como algo antigo ou meramente utilitário. Presenciei recentemente uma exposição onde as peças eram tão sofisticadas que foi difícil acreditar que originaram-se da mente de uma gente simples, do campo, embora já alteradas em sua essência pelo “dedo” de algum designer contratado para dar mais “qualidade” às obras-primas!

As peças e utensílios de “pobre” que não combinavam com nada nas casas da cidade, agora tem um novo status e caráter “cool”. 

As peças produzidas em comunidades remanescentes de quilombos ou inspirados na África agora são denominadas de “étnicas”. Logo, é chique usar um colar “étnico” com uma camiseta básica, jeans e tênis, afinal assim você está transitando entre o brega e o chique, ou melhor, entre o rústico e o moderno! 

Os brincos de capim dourado quando se espalharam em todo o Brasil fizeram muito sucesso. Toda garota descolada tinha um par. Dava pra saber que vinham do Tocantins não só pela matéria-prima, mas também pelo design das peças. Eram sempre redondas em espiral. Idéia das artesãs. Aprenderam assim.

Hoje com a interferência de designers e empresas que julgam ajudar, as peças tem outra conotação, outra cara e os artesãos precisam de cursos para reaprender a tratar a matéria-prima que nasceram manuseando. Nada contra a colaboração de gente competente em todo o processo. Pelo contrário, artesanato é cultura e a cada vez que extrapola os limites do lugar de origem leva consigo a alma do lugar e de quem o fez. Ponto para quem leva e para o lugar de onde saiu.

Trazendo a discussão para a realidade maranhense, estudiosos, curiosos e viajantes assim que perguntados sobre nosso artesanato, imediatamente lembram das fibras de buriti, dos azulejos e do nosso boizinho com fitas coloridas. É verdade, esse boizinho é a nossa cara. Muitos ludovicenses ainda preservam o hábito de ter um pendurado no retrovisor do carro. O problema é que em nossas lojas de artesanato só vemos aqueles de barro com o sininho no pescoço. Esses não são nossos não! Já os vi em todo o Nordeste e aí seria necessário um estudo mais aprofundado pra saber a origem. Acredito ser o boi mamão de Santa Catarina!

Barcos também são comuns em nossos mares e rios, mas aqueles barquinhos feitos de ossos originários de Pernambuco não eram pra estar em nossas prateleiras também não. Já cheguei ao absurdo de achar à venda em uma loja em Entroncamento os tais barquinhos. É fácil saber o que estava escrito neles: “Lembrança de Pernambuco” é claro!

Não cabe aqui elencar todas as peças que não traduzem nossos costumes. Até porque são muitas. As lojas de artesanato do Centro Histórico estão cheias delas. 

A verdade é que temos matéria-prima para desenvolvermos o que quisermos. Peças utilitárias, de vestuário ou meramente decorativas. O que falta é uma política séria de incentivo, sustentabilidade e comercialização. O que falta é valorizarmos o que é nosso não importando se é brega ou chique. Importando mesmo é que temos orgulho das nossas raízes e dos modos de vida da nossa gente.

Peças produzidas em Cooperativas ou Associações por exemplo, geram desenvolvimento para todas as pessoas envolvidas. Esse desenvolvimento se traduz em melhor qualidade de vida. Esta por sua vez, leva a esperança por uma vida melhor e a satisfação em produzir uma peça que vai correr mundo afora.

Vá lá, crie coragem para mudar e experimente decorar sua casa ou usar peças genuínas do nosso torrão. Prepare-se para os elogios!

Texto Originalmente publicado na Edição Nº setembro/2008 do Jornal Cazumbá 
Imagem Ilustrativa / Internet 

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