Em parceria com a Petrobras e comunidades locais, o objetivo é transformar desafios ambientais em oportunidades econômicas
SÃO LUÍS – Comunidades de São Luís, Paço do Lumiar e Raposa participam do projeto “Fortalecimento de Cadeias Produtivas do Amapá, Pará e Maranhão para a Promoção da Bioeconomia na Amazônia Legal”. A iniciativa desenvolvida pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI-MA) em parceria com a Petrobras visa estimular o desenvolvimento econômico sustentável em comunidades tradicionais nos três estados amazônicos. A ação reúne educação profissional, inovação, transferência tecnológica e empreendedorismo social para fortalecer cadeias produtivas formadas por produtos florestais não madeireiros, pesca artesanal e recursos naturais característicos da região.
Todas as ações foram estruturadas a partir das realidades sociais, culturais e ambientais das comunidades beneficiadas e têm como foco a geração de novos produtos, novos negócios e aumento de renda para famílias indígenas, quilombolas, pescadores, mulheres, pessoas negras, pessoas com deficiência e outros grupos considerados vulneráveis.
No Maranhão, as ações têm como eixo estruturante o uso sustentável do coco verde e da juçara, duas matérias-primas abundantes na Grande Ilha e que apresentam grande potencial para a bioeconomia regional. No estado, o projeto assume papel estratégico para transformar desafios ambientais em oportunidades econômicas. As ações são direcionadas aos municípios de São Luís, Paço do Lumiar e Raposa, regiões onde o descarte inadequado das cascas de coco e dos resíduos da juçara gera impactos ambientais significativos, especialmente em praias, áreas urbanas e aterros sanitários.
Comunidades desses três municípios também apresentam alto nível de vulnerabilidade social, forte dependência de benefícios governamentais e grande informalidade no trabalho, fatores que motivaram a estruturação de uma rota tecnológica capaz de agregar valor aos resíduos, gerar renda e promover autonomia produtiva. Nesse contexto, o projeto implementa um amplo conjunto de transferências tecnológicas baseadas na economia circular, transformando resíduos do coco verde e da juçara em produtos de alto valor social e ambiental.
EDUCAÇÃO AMBIENTAL – O ponto de partida do projeto tem sido o curso de Educação Ambiental, como o que certificou esta semana 20 moradores do Povoado da Pindoba, em Paço do Lumiar. A capacitação abordou regularização de instrumentos ambientais, como o Cadastro Ambiental Rural e a regularização de poços artesianos; licenciamento e a formalização de atividades econômicas locais, especialmente de pequenas indústrias de beneficiamento de alimentos, como o processamento da juçara. Os participantes também receberam orientações sobre manejo de resíduos, critérios de áreas de preservação (manguezais e reservas legais) e limites do extrativismo sustentável, com ênfase em transformar resíduos (cascas e caroços) em produtos úteis e fonte de renda.
“Muitos dos 20 participantes não sabiam, por exemplo, que o uso da terra tem regras e que a retirada predatória da juçara traz impacto. Explicamos também sobre a necessidade de regularizar poços artesianos e atividades econômicas. A partir desse conhecimento, os participantes já começaram a aplicar na prática o que aprenderam. Surgiram várias ideias para transformar os resíduos em renda”, explicou Kellen Luz, consultora do SENAI-MA.
EMPREENDEDORISMO - A partir do curso de Educação Ambiental surgiram novas ideias de utilização dos resíduos. Driele Ferreira Silva, que trabalha na Secretaria Municipal de Agricultura de Paço do Lumiar e desenvolve atividades comunitárias na Pindoba, foi uma das participantes. “Essa experiência foi muito positiva e transformadora. Vivendo na zona rural, inicialmente via a educação ambiental pouco prática, mas o curso mostrou a importância do tema no dia a dia e que muitas práticas já presentes na comunidade podem virar oportunidades, como o uso da folha da babosa para produzir inseticida e o aproveitamento das folhas da mangueira para adubo e chás medicinais”, antecipou Driele, ansiosa para as próximas etapas do projeto.
Com mais de 30 anos de história, o Clube de Mães e dos Agricultores Familiares do Povoado da Pindoba, uma das comunidades atendidas no projeto, atua como polo comunitário de convivência, produção e assistência social. Regido por iniciativas de geração de renda e fortalecimento da agricultura familiar, o grupo promove cursos, atividades culturais, atendimento jurídico e programas de apoio a idosos e pessoas em tratamento de saúde. Além de gerir projetos de produção agroecológica e de comercialização, a associação coordena programas de segurança alimentar, como a produção de cestas e o PNAE local, e iniciativas de empreendedorismo que visam autonomia financeira, sobretudo para as mulheres da comunidade
“A parceria com o SENAI chegou em um momento fundamental para a Pindoba. Vai nos ensinar a transformar o que antes era descarte do coco e da juçara em matéria‑prima valiosa, com técnicas práticas para produzir com qualidade e autonomia, e abriu caminhos para que a nossa produção vire renda e emprego sem que tenhamos que sair da comunidade. Agora queremos avançar com certificação, formalização e acesso a mercados para consolidar esse trabalho”, disse Concita da Pindoba, presidente do Clube de Mães e dos Agricultores Familiares do Povoado da Pindoba.
TRANSFERÊNCIA TECNOLÓGICA – Essa formação serviu de base teórica para módulos práticos futuros do SENAI-MA, que incluirão o desenvolvimento de tecnologias, como filtros, verificação da potabilidade da água e fabricação de tijolos ecológicos, além de um curso prático de processos construtivos e boas práticas de fabricação de alimentos. “O nosso objetivo é transformar resíduos (cascas e caroços) em produtos de valor, reduzir queima e emissões, estimular empreendedorismo local, aumentar renda por meio da economia circular e estimular a formalização de atividades econômicas para consolidar cadeias produtivas sustentáveis”, explicou Scheherazade de Araújo Bastos, gerente da unidade do SENAI Distrito Industrial.
Uma das principais tecnologias é o desenvolvimento de uma pasta coagulante obtida a partir da lignina presente na casca do coco verde, destinada ao tratamento da água e à redução de turbidez em comunidades afetadas pela falta de saneamento básico. Outra solução é a criação de um filtro ecológico produzido com caroços e resíduos do cacho da juçara combinados com sobras da casca de coco, ampliando a capacidade local de acesso à água de melhor qualidade.
A área de alimentos também recebe atenção com a produção de pães funcionais, um utilizando o mesocarpo do coco e outro substituindo a água comum pela água de coco, além da produção de polpa de juçara enriquecida com água de coco e de biscoito artesanal de juçara, produtos projetados para reduzir déficits nutricionais e ao mesmo tempo estimular cadeias produtivas comunitárias. Já na construção civil sustentável, o projeto introduz tecnologias para a criação de tijolos ecológicos, tanto sem queima, utilizando resinas vegetais, quanto com queima, incorporando cinzas do coco e da juçara, oferecendo alternativas de menor impacto ambiental e aproveitando materiais que hoje compõem grande parte dos resíduos sólidos da região. Todas essas tecnologias sociais estão sendo testadas, validadas e serão transferidas para as comunidades, que receberão formação para reproduzir os produtos e transformá-los em novas oportunidades de empreendedorismo social.
Informação: Fiema
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