segunda-feira, 20 de abril de 2026

Com capacitações, organização dos pequenos negócios e valorização do modo de vida local, comunidade de Barreirinhas amplia experiências e projeta crescimento para 2026

Às margens do Rio Preguiças, entre Atins e Mandacaru, em Barreirinhas, o povoado Bar da Hora vem se consolidando como um dos principais exemplos de turismo de base comunitária nos Lençóis Maranhenses, com o apoio do Sebrae. Formada por cerca de 300 famílias, tradicionalmente ligadas à pesca artesanal, a comunidade encontrou no turismo uma alternativa sustentável para gerar renda, preservar o meio ambiente e valorizar seu modo de vida.

O destino Bar da Hora oferece uma experiência viva. Quem chega encontra paisagens, pessoas, histórias e práticas cotidianas que revelam uma relação profunda com a natureza. “Aqui, o que a gente oferece é a nossa própria vida, o nosso jeito de viver. É isso que encanta quem chega”, resume a presidente da Associação de Moradores, Neusa Oliveira.

Esse modelo coletivo tem transformado a realidade local. Em 2025, a comunidade recebeu cerca de mil visitantes e, para 2026, a expectativa é dobrar esse número, mantendo o compromisso com a sustentabilidade e o protagonismo dos moradores. Para atender à crescente demanda, a comunidade já se organiza para ampliar a capacidade de hospedagem, com a criação de novos leitos. Cerca de dez novas vagas estão sendo estruturadas pelos próprios moradores, que abrem suas casas para receber os visitantes, fortalecendo ainda mais o turismo de base comunitária e a geração de renda local.

Preparação para crescer com organização

Entre os dias 08 e 10 de abril, o Sebrae Maranhão realizou na comunidade a Jornada Empreendedora, com o objetivo de preparar os moradores para a alta temporada de 2026, que se inicia no mês de maio. A programação incluiu capacitações em gestão, finanças, atendimento ao cliente, marketing e orientação para inserção dos empreendimentos no Google Maps, ampliando a visibilidade e facilitando o acesso dos turistas.

Segundo o analista técnico do Sebrae em Lençóis Munim, Ramon Ferreira, a ação foi pensada para fortalecer a base do turismo local. “Realizamos três dias intensos de consultorias, capacitações e troca de conhecimentos, abordando temas como artesanato, marketing, atendimento, gestão financeira e até noções de primeiros socorros. É um conjunto de ações que prepara a comunidade para receber melhor o turista e fortalecer o turismo de base comunitária”, explica.

A programação também contou com oficinas de artesanato voltadas para crianças, estimulando desde cedo o empreendedorismo e a valorização da cultura local. Para a moradora Alana Rocha, o aprendizado trouxe uma nova perspectiva sobre o cotidiano da comunidade. “A participação nos cursos abre muito a nossa mente. Coisas que fazem parte do nosso dia a dia, que a gente nem valoriza tanto, podem ser experiências incríveis para quem vem de fora. A gente passa a enxergar que o nosso modo de viver tem valor e que pode gerar oportunidade para todos”, destaca.

Comunidade organizada, turismo coletivo

A organização comunitária é um dos pilares desse processo. Reuniões frequentes, divisão de responsabilidades e o envolvimento coletivo fortalecem o modelo adotado, no qual todos participam ativamente do desenvolvimento das atividades turísticas.

Nesse contexto, os pequenos negócios desempenham um papel central. São os próprios moradores, organizados em associação, que cozinham, recebem os visitantes e transformam o seu modo de vida em oportunidade econômica. Esse modelo garante que a renda gerada pelo turismo permaneça dentro da comunidade, fortalecendo as famílias e promovendo inclusão produtiva. Além disso, lideranças locais conduzem esse processo de forma estruturada, em articulação com o Sebrae, a prefeitura e outras instituições parceiras.

Para o líder comunitário Jamerson Pereira, esse processo representa uma mudança significativa na realidade local. “O Sebrae tem sido um parceiro estratégico muito importante pra gente. Antes, muitos moradores saíam daqui para trabalhar em outras comunidades. Hoje, estamos empreendendo no nosso próprio lugar, construindo nossas oportunidades. E, para isso, a gente precisa se preparar, se capacitar e se organizar. Esse apoio chega no momento certo e fortalece a nossa confiança para crescer sem perder nossa identidade”, afirma

Do ponto de vista técnico, o fortalecimento dos pequenos negócios permite maior flexibilidade na oferta turística, sem perder a essência da identidade local,  justamente o que o visitante busca: autenticidade e experiências reais. “Sem o pequeno negócio, o turismo seria apenas visitação. Com ele, a gente transforma a vivência em produto turístico, com base local, sustentável e com potencial de crescimento”, reforça Jamerson, sobre a lógica que orienta o trabalho desenvolvido na comunidade.

O preparo já se reflete no dia a dia. Pequenos negócios começam a se estruturar e os moradores aprimoram o atendimento. “Com o apoio do Sebrae, a gente está se preparando melhor para receber os visitantes. Aprendemos sobre vendas, organização, gestão e comunicação, e isso faz toda a diferença”, destacam os empreendedores Marleude Pereira e Julio Santos.

Para a comerciante local Eleonora Rocha, o crescimento da comunidade tem sido construído de forma gradual, mas consistente, respeitando o tempo e os princípios do turismo de base comunitária. “Não é como o turismo comercial, que chega, explora e muitas vezes deixa impactos negativos. Aqui é diferente, a gente cuida do lugar e cresce com responsabilidade”, explica.

Para ela, o fortalecimento do turismo na comunidade depende também de visibilidade. “A gente sabe que ainda precisa divulgar mais o Bar da Hora. Outras regiões já são mais conhecidas, mas aqui estamos crescendo aos poucos. É um trabalho familiar, feito com dedicação, e a gente acredita que, com o apoio do Sebrae e com o tempo, vamos chegar lá”, afirma.

Quintais que contam histórias

Para quem visita o Bar da Hora, a experiência começa nos quintais. São espaços vivos, produtivos e cheios de significado, onde se revelam o cuidado com a terra, a autonomia alimentar das famílias e uma relação profunda com a natureza. Os quintais são áreas de cultivo e extensões da casa e da cultura local, onde cada detalhe carrega saberes tradicionais e práticas sustentáveis construídas ao longo do tempo.

“O visitante vem, conhece nossos quintais, nossas hortas, vive com a gente um pouco do nosso dia a dia”, conta a moradora Maria de Jesus, que abre as portas de sua casa para compartilhar essa vivência. Durante a visita, é possível acompanhar o cultivo de alimentos, conhecer plantas medicinais, observar a criação de pequenos animais e entender como a rotina da comunidade se organiza em torno desses espaços.

Nos quintais, tudo se conecta: da produção de alimentos ao uso de tecnologias sustentáveis, como os biodigestores, que transformam resíduos orgânicos em gás de cozinha, iniciativa implantada com apoio do Sebrae. A prática reduz impactos ambientais e reforça a autonomia das famílias. “Aqui nos quintais a gente planta, colhe e transforma em alimento. Tudo que a gente usa vem daqui mesmo, é da terra, é do nosso cuidado”, reforça Neusa Oliveira.

Essa vivência transforma o olhar do visitante e revela que, em Bar da Hora, o turismo vai além da contemplação: é uma experiência de troca, aprendizado e valorização do modo de viver da comunidade.

Artesanato, cultura e novas oportunidades

Além da produção de alimentos, o artesanato também vem ganhando espaço como expressão cultural e alternativa de geração de renda no Bar da Hora. A comunidade está estruturando uma pequena loja para a comercialização de peças produzidas localmente. O espaço surge como ponto de acolhimento aos visitantes e vitrine do que é produzido pelas mãos dos moradores.

“Essa lojinha é um sonho que estamos construindo com muito esforço. É uma forma de receber melhor os turistas, mostrar a nossa cultura e também gerar mais renda para a comunidade”, explica a artesã Elciane Santos, que integra o grupo de empreendedoras locais.

Outro destaque é a fábrica de vassouras feitas a partir de garrafas PET, uma iniciativa que alia sustentabilidade, inovação e geração de renda. O projeto teve início em 2025, a partir de consultorias do Sebrae, e vem se consolidando como uma alternativa produtiva dentro da comunidade. Durante a Jornada Empreendedora, a fábrica passou por novas orientações técnicas e avançou na organização do negócio, incluindo a inserção no Google Maps, ampliando sua visibilidade.

As garrafas utilizadas na produção são recolhidas no rio e em áreas próximas, contribuindo diretamente para a limpeza do ambiente e o reaproveitamento de resíduos. O processo envolve coleta, higienização, corte e montagem das vassouras, em um trabalho coletivo que envolve moradores da comunidade. “Cada vassoura que a gente faz ajuda a cuidar do nosso lugar. A gente tira as garrafas do meio ambiente e transforma em algo que gera renda pra comunidade”, afirma Raimundo Souza, que participa da produção.

Mais do que produtos, as iniciativas revelam um novo momento vivido pelo Bar da Hora, onde criatividade, sustentabilidade e organização comunitária se unem para ampliar as oportunidades e fortalecer o turismo de base comunitária.

Desenvolvimento com estratégia e identidade

A atuação do Sebrae no Bar da Hora vem sendo construída ao longo dos últimos anos com foco no desenvolvimento territorial e na valorização das potencialidades locais. A partir de uma abordagem integrada, a instituição tem apoiado a organização da produção, a estruturação de experiências turísticas e o fortalecimento dos pequenos negócios.

Segundo o gerente da Unidade de Lençóis Munim do Sebrae Maranhão, David Amorim, o trabalho desenvolvido na localidade demonstra como o turismo pode ser estruturado de forma sustentável e com protagonismo comunitário. “Já são cerca de quatro anos de atuação no Bar da Hora, com ações voltadas à capacitação dos empreendedores, organização da produção local e construção de roteiros turísticos baseados na cultura ribeirinha, na gastronomia e nos saberes tradicionais”, destaca.

O gerente também ressalta que o trabalho vai além da qualificação, incorporando práticas sustentáveis e ações estruturantes. “Apoiamos iniciativas como a implantação de biodigestores em empreendimentos locais, contribuindo para o uso consciente dos recursos e a preservação ambiental. Além disso, promovemos eventos como o São João de Oportunidades, que pela primeira vez levou um arraial estruturado à comunidade, unindo cultura, geração de renda e fortalecimento do turismo. Tudo isso é construído de forma coletiva, junto com os moradores, respeitando o tempo e a realidade do território”, conclui.

Informação: Sebrae MA

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