terça-feira, 23 de junho de 2026

Especialista explica como os símbolos culturais emocionam e ajudam a construir identidade

O Brasil tem praias mundialmente conhecidas, uma culinária que mistura influências de vários continentes e festas populares que atraem turistas do mundo inteiro. Ainda assim, poucos símbolos parecem despertar tanto orgulho quanto o Hino Nacional. Prova disso foi a reação dos brasileiros após o jornal norte-americano The New York Times eleger o hino brasileiro como o melhor entre os 48 países participantes da Copa do Mundo de 2026. “Um dos melhores hinos do mundo”, escreveu o jornalista Tim Spiers ao destacar a composição, elogiando especialmente a introdução orquestral de 28 segundos. 

O elogio viralizou nas redes sociais e reacendeu um sentimento conhecido: o orgulho de ser brasileiro. Mas, em um país tão diverso e cercado por tantos outros símbolos culturais, esportivos e digitais, por que uma canção criada há mais de um século continua sendo capaz de emocionar, unir e representar milhões de pessoas?

Para especialistas, o reconhecimento ganha tanta atenção porque fortalece a forma como os próprios brasileiros enxergam sua cultura e seus símbolos nacionais. O publicitário e professor do curso de Deisgn da Estácio, Guilbert Macedo, destaca que os hinos são tão importantes por causa do papel que desempenham na construção da identidade coletiva.

"Os símbolos oficiais funcionam porque são institucionalizados. Ao contrário da culinária ou dos sotaques, que mudam de região para região, esses símbolos foram criados para ficar acima das diferenças locais. Eles constroem o que a sociologia chama de comunidade imaginada: uma identidade única que faz com que milhões de pessoas que não se conhecem sintam que pertencem ao mesmo país e se reconheçam no mundo", explica.

O especialista destaca a percepção que os brasileiros têm de si mesmos, que também é muito influenciada pelo olhar estrangeiro. "A nossa autoimagem como nação depende muito de como o mundo nos enxerga. Quando um símbolo soberano, como o hino, ou grandes conquistas culturais, ganham destaque internacional, ocorre uma legitimação externa. Esse reconhecimento diminui aquela velha tendência de desvalorizarmos o que é nosso e transforma o aplauso estrangeiro em orgulho e união por aqui", avalia. 

A FORÇA DA MÚSICA

Mais do que um símbolo político ou institucional, os hinos também possuem um poderoso componente emocional. A música é capaz de conectar pessoas, criar memórias e despertar sentimentos compartilhados. "Na comunicação, a música é uma das ferramentas mais poderosas para gerar conexão imediata. Ela ativa nossas emoções de forma direta e cria um fenômeno que as ciências sociais descrevem como ‘efervescência coletiva’”, explica Guilbert. 

Isso explica, por exemplo, porque, seja dividindo um fone de ouvido ou cantando em um festival com milhares de desconhecidos, o ritmo e a letra ajudam a despertar a sensação de coletividade. “A música cria a sensação de que todos fazem parte de um único organismo", observa Guilbert. Essa força simbólica costuma ficar ainda mais evidente em eventos esportivos de grande alcance, como Copas do Mundo e Jogos Olímpicos, quando milhões de pessoas acompanham atletas representando o país e cantam juntas os versos do hino nacional.

Se antes os hinos estavam presentes principalmente em cerimônias oficiais, hoje eles também circulam pelas redes sociais, em vídeos, memes e transmissões esportivas. Para Guilbert, a internet não enfraqueceu esses símbolos, mas transformou a forma como as novas gerações se relacionam com eles.

"A internet e os conteúdos rápidos não mataram os hinos, mas mudaram a forma como os jovens interagem com eles. Hoje, o Hino Nacional aparece nas redes em momentos de nacionalismo performático, como na Copa do Mundo ou nas Olimpíadas. O comportamento digital transformou o hino em conteúdo partilhável, muitas vezes gerando brincadeiras e comparações com músicas populares, por exemplo. Mas o símbolo sobrevive, porque as novas gerações continuam a precisar desses marcos de pertencimento", conclui.

E o Hino do Maranhão?

A discussão também abre espaço para a importância dos símbolos regionais. Embora não exista estudo que o classifique oficialmente como o mais bonito do país, o Hino do Maranhão é frequentemente apontado por músicos e estudiosos da cultura local como uma das composições cívicas mais sofisticadas entre os estados brasileiros, pela riqueza poética da letra e pela elaboração de sua melodia. 

Oficializado há cem anos, em 1926, o Hino do Maranhão tem letra de Antônio Baptista Barbosa de Godóis e música de Antônio Rayol. A composição reúne referências à história, à natureza e ao orgulho do povo maranhense, retratando momentos importantes da formação do estado.

Apesar de seu valor histórico e cultural, o professor acredita que os hinos estaduais enfrentam desafios para permanecerem presentes no cotidiano da população. "Para que um hino estadual fortaleça a cultura de um povo, ele precisa de capilaridade, ou seja, estar presente no dia a dia das pessoas. No Maranhão, o hino oficial compete com manifestações culturais legítimas e espontâneas, como o Bumba Meu Boi”. 

O docente reforça a importância de valorização dos símbolos estaduais para manutenção dessa identidade. “Sem um trabalho forte de educação e divulgação nas escolas e mídias, o hino acaba restrito a eventos burocráticos, enquanto a cultura popular assume o verdadeiro papel de identidade", avalia.

Mais do que melodias executadas em cerimônias oficiais, os hinos continuam funcionando como instrumentos de memória, identidade e conexão coletiva. E, conforme demonstra a imprensa estrangeira, ainda são capazes de emocionar pessoas dentro e fora do do país.

Informação: WComunicação 

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