Controle sobre roupas e amizades, humilhações, chantagem emocional e restrições financeiras podem indicar uma relação violenta mesmo sem agressões físicas
Nem todo relacionamento abusivo começa com uma agressão física. Em muitos casos, a violência surge de maneira gradual, por meio de comportamentos que podem ser confundidos com ciúme, preocupação ou cuidado. Restrições sobre as roupas, tentativas de controlar amizades, críticas frequentes e chantagens emocionais estão entre os sinais que precisam ser observados.
O alerta ganha destaque durante o Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher. Nesta sexta-feira, 7 de agosto de 2026, a Lei Maria da Penha completa 20 anos. A legislação reconhece cinco formas de violência doméstica e familiar: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.
Apesar dos avanços na proteção das vítimas, os números continuam preocupantes. A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado em 2025, estima que 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum episódio de violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores ao levantamento.
Segundo a psicóloga e professora da Estácio, Renata Pacheco, é importante entender que a violência pode começar com manipulações, proibições e tentativas de limitar a liberdade da mulher.
“Comportamentos como impedir a mulher de frequentar determinados lugares, sair com certas roupas ou encontrar amigos devem ser considerados sinais de violência. Também estão entre os alertas a chantagem emocional, as falas que afetam a autoestima, a difamação, o controle econômico e de bens materiais e a imposição de relações sexuais”, explica.
A especialista também enumera cinco sinais que indicam um relacionamento abusivo. Veja abaixo.
1. Controle sobre roupas, lugares e escolhas
“O relacionamento abusivo é marcado por uma tentativa de controle e demonstração de superioridade. Em muitos casos, esse comportamento fica mais evidente após a consolidação da relação”, explica Renata. Assim, questionar constantemente a roupa usada pela mulher, impedir que ela frequente determinados lugares ou exigir explicações sobre cada atividade não deve ser interpretado como demonstração de cuidado.
Esse controle pode surgir de maneira sutil, com comentários, reclamações e tentativas de convencimento. Com o tempo, porém, as imposições podem se tornar mais frequentes e reduzir a autonomia da mulher.
2. Ciúme excessivo apresentado como prova de amor
Frases como “tenho ciúme porque amo você” podem contribuir para que comportamentos abusivos sejam normalizados. O problema ocorre quando o ciúme é utilizado para justificar cobranças, vigilância, acusações, invasão de privacidade ou proibições.
O parceiro pode tentar controlar com quem a mulher conversa, quais amizades mantém, onde vai ou quanto tempo permanece fora de casa. Quando esses comportamentos são tratados como naturais, a vítima pode demorar a reconhecer que está vivenciando uma forma de violência psicológica.
3. Humilhações e falas que afetam a autoestima
Insultos, críticas constantes, gritos, constrangimentos e falas que fazem a mulher duvidar da própria capacidade também são sinais de abuso. Nem sempre essas agressões acontecem diante de outras pessoas. Muitas vezes, o parceiro alterna momentos de desvalorização com pedidos de desculpas e demonstrações de carinho.
De acordo com a psicóloga, essas situações podem afetar a autoestima e a saúde emocional da vítima, além de contribuir para que ela se sinta culpada pelo comportamento do agressor ou incapaz de sair da relação.
4. Afastamento de familiares e amigos
O isolamento da rede de apoio é outro sinal importante. O parceiro pode criticar familiares e amigos, criar conflitos, dificultar encontros ou fazer com que a mulher se sinta culpada por manter esses vínculos.
Gradualmente, ela pode se afastar das pessoas com quem poderia conversar ou pedir ajuda. Esse isolamento aumenta a dependência emocional e dificulta a percepção de que determinados comportamentos não são normais em uma relação saudável.
Por isso, familiares e amigos devem evitar julgamentos e cobranças. Questionamentos como “por que você ainda está com ele?” podem afastar ainda mais a vítima. O mais indicado é oferecer acolhimento, escuta e apoio para que ela procure os serviços de proteção com segurança.
5. Chantagem emocional e controle financeiro
Ameaçar terminar o relacionamento, retirar apoio financeiro, controlar o salário da mulher, esconder documentos, impedir que ela trabalhe ou decidir sozinho como o dinheiro será utilizado são comportamentos que podem caracterizar violência psicológica e patrimonial. O mesmo ocorre quando o parceiro se coloca constantemente como vítima, responsabiliza a mulher pelas próprias agressões ou promete mudar apenas para evitar o fim da relação.
Renata explica que a violência pode seguir um ciclo composto por três fases. A primeira é a tensão, marcada por insultos, humilhações e discussões. Em seguida ocorre a explosão, quando as agressões se intensificam. Por último, vem a chamada “lua de mel”, período no qual o agressor pede desculpas, nega ou minimiza o ocorrido e promete mudanças. Sem ajuda e intervenção, esse ciclo pode voltar a se repetir.
Identificação e rede de apoio são fundamentais
Reconhecer os primeiros sinais é um passo importante para interromper a violência. Segundo a psicóloga, a vítima precisa encontrar uma rede de apoio formada por familiares, amigos e serviços especializados.
“A violência contra as mulheres atravessa perspectivas sociais, econômicas, culturais e religiosas. Julgamentos e pressupostos afastam o pedido de ajuda, afetam a autoestima e contribuem para o isolamento da vítima. É necessário acolher e ajudar essa mulher a buscar proteção”, reforça Renata Pacheco.
Mulheres em situação de violência podem procurar a Central de Atendimento à Mulher pelo número 180. O serviço é gratuito, funciona 24 horas por dia e oferece orientações, informações sobre a rede de atendimento e encaminhamento de denúncias. Em situações de emergência ou risco imediato, a Polícia Militar deve ser acionada pelo 190.
Informação: Cores Comunicação
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