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segunda-feira, 29 de julho de 2019

Neste 29 de julho, o mundo lembra o chamado Dia de Sobrecarga da Terra — a data em que o consumo de recursos do planeta pelos seres humanos ultrapassou a capacidade que a natureza tem de repor esses recursos ao longo do ano.

Para marcar o dia, a ONU Meio Ambiente celebra a trajetória da estilista brasileira Magna Coeli, que decidiu repensar a forma de se fazer moda, reaproveitando sobras de tecido e materiais que normalmente seriam descartados.


Hoje, 29 de julho, a humanidade registrou um novo recorde desanimador, gastando o orçamento de recursos da natureza para o ano todo, faltando ainda cinco meses para o final de 2019. Esse é o Dia de Sobrecarga da Terra mais adiantado. A data é um lembrete gritante de como a atividade humana está esgotando os recursos finitos do nosso exausto planeta.

Ao longo dos últimos 20 anos, o Dia de Sobrecarga da Terra — que marca a data em que a demanda anual da humanidade pela natureza excede o que os ecossistemas podem repor em um ano — foi adiantado em três meses. Isso significa que estamos esgotando o nosso capital natural cada vez mais rápido, colocando em perigo a sobrevivência das gerações futuras.

A data é calculada pela organização internacional de pesquisa Global Footprint Network, usando a ferramenta de pegada ecológica da instituição. O excesso de gastos ecológicos se traduz em desmatamento, erosão do solo, perda da biodiversidade e mais emissões de carbono.

A necessidade urgente de combater o desperdício dos recursos do mundo pela humanidade está no centro das ações do Programa da ONU para o Meio Ambiente. A agência das Nações Unidas promove o consumo e a produção sustentáveis como parte do seu compromisso com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas. Para preservar o nosso planeta, o crescimento econômico precisa ser desvinculado do consumo de recursos finitos e o desperdício precisar ser eliminado do sistema global.

É exatamente isso que Magna Coeli se propôs a fazer quando criou a empresa têxtil Refazenda em Recife (PE), em 1990. Muito antes de o termo upcycling entrar nas discussões sobre moda, a estilista brasileira encontrou um meio de transformar o lixo em luxo, recolhendo tecidos descartados e usando-os para fazer novas roupas, joias e acessórios.

A sua inspiração tinha raízes na infância.

“Meu pai foi alfaiate e a minha mãe, costureira e, quando criança, eu aprendi a costurar roupas para as minhas bonecas. Eu consigo me lembrar de usar pedaços de tecido do trabalho do meu pai como matéria-prima para a confecção das roupas das minhas bonecas”, conta Magna.

Os funcionários da Refazenda usam patchworks — colchas de retalhos — feitos com sobras de tecido como matérias-primas para a confecção de novos itens. Embora a empresa tenha começado fazendo tecidos para uso e decoração domésticos, atualmente a empresa fabrica roupas e também produz tecidos naturais, usando algodão, seda e linho orgânicos.

A companhia também emprega rendeiras locais, dando emprego para artesãs habilidosas que ficaram sem ocupação por causa das novas tecnologias. A Refazenda realiza ainda workshops para ensinar aos seus consumidores como reaproveitar as próprias roupas e, assim, estender o ciclo de vida dos seus guarda-roupas.


“Agora, eu olho para trás e entendo que sempre busquei maneiras de praticar o upcycling, bem antes de o conceito ser criado e ter seu significado definido nos dicionários”, diz Magna.

“A essência da ‘reciclagem de valor agregado’ foi embutida no conceito do negócio, junto com o desejo de pensar a moda de uma maneira circular.”

Magna acredita que não é possível ser ambientalmente sustentável sem ser socialmente e financeiramente sustentável também.

“Permanecer comprometida com as três dimensões da sustentabilidade é primordial”, diz a estilista.

“Negligenciar qualquer um desses pilares é romper o conceito ideal da sustentabilidade. O grande desafio é a busca constante do equilíbrio entre as dimensões social, econômica e ambiental. E isso é alcançado sendo o mais consciente e transparente possível.”

O impacto ambiental da chamada fast fashion ou “moda rápida” é amplamente conhecido, e esforços estão sendo feitos para tentar remodelar a segunda indústria mais poluente do mundo. Todos os anos, a indústria da moda usa em torno de 93 bilhões de metros cúbicos de água e cerca de meio milhão de toneladas de microfibras são despejadas no mar. O setor também é responsável por mais emissões de carbono do que todos os voos internacionais e envios de cargas marítimas somados.

A ONU Meio Ambiente trabalha com as indústrias têxteis para promover uma transição rumo à economia circular. O organismo também abrange a Aliança da ONU para a Moda Sustentável, uma iniciativa de agências da ONU e organizações aliadas que visa contribuir com o cumprimento dos ODS por meio de ações coordenadas no setor da moda.

Mas a moda não é a única culpada: todas as indústrias e setores precisam projetar produtos mais duráveis. A ONU Meio Ambiente está trabalhando para colocar a durabilidade no centro do sistema global da indústria, combatendo a obsolescência programada e encorajando fabricantes a oferecer serviços de manutenção e conserto.

Como parte de seu trabalho na One Planet Network, a ONU Meio Ambiente, a Universidade de Tecnologia de Delft e o Instituto Akatu produziram um relatório e estudos de caso com o intuito de oferecer recomendações sobre as oportunidades disponíveis para consumidores, para o setor privado e para os governos na implementação de estratégias de ciclo de vida dos produtos.

A publicação The Long View: Exploring Product Lifetime Extension (“A visão de longe: explorando a extensão do ciclo de vida dos produtos”, em tradução livre para o português) foi financiada pelo Ministério da França para a Transição Ecológica e Solidária. A Refazenda foi tema de um estudo de caso para inspirar outros empreendedores.

“Com a esperada duplicação da classe média global nos próximos anos, é amplamente sabido que o modelo da economia linear está alcançando os seus limites físicos e ambientais e que uma transição para uma economia mais circular e para práticas mais sustentáveis de consumo e produção farão sentido para as pessoas e para o planeta”, afirma o relatório.

Ligia Noronha, diretora da Divisão de Economia da ONU Meio Ambiente, aponta que o modelo econômico global “pegue-use-descarte” — que depende de grandes quantidades de energia e de materiais baratos e facilmente acessíveis — precisa de reformas.

“A única maneira pela qual todos nós podemos sobreviver nesse planeta, ao mesmo tempo em que garantimos saúde e dignidade para todos, é mudar radicalmente o modo como produzimos, consumimos e vivemos as nossas vidas. Uma transição para uma economia mais circular e para padrões sustentáveis de consumo e produção é urgente”, acrescenta Ligia.

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 12 defende diretamente a produção e o consumo responsáveis, com metas específicas sobre o uso eficiente de recursos naturais, a redução do desperdício de alimentos e o manejo ambientalmente saudável de substâncias químicas e de todos os resíduos ao longo dos seus ciclos de vida.

“A extensão da vida de um produto é uma proposta consistente, uma vez que reduz o uso de recursos e o desperdício, ao mesmo tempo em que preserva o valor econômico embutido nos produtos. É uma situação em que todos ganham, o meio ambiente, a economia e a sociedade. Podemos reduzir o desperdício e poupar recursos. A economia ganha porque as empresas poupam dinheiro e a sociedade ganha porque as pessoas fazem seu dinheiro valer mais e tem mais informação sobre o que compram”, diz Ligia.

A necessidade de fazer mais com menos e de fazer tudo de um jeito diferente está no centro dos esforços para garantir a sobrevivência do nosso planeta perante desafios como o crescimento populacional e as mudanças climáticas.

Em 23 de setembro de 2019, acontecerá em Nova Iorque a Cúpula de Ação Climática da ONU, convocada pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, para destacar a necessidade de agir urgentemente contra esses problemas interligados.

Magna afirma que pode ser um desafio promover negócios inovadores como o dela em economias em desenvolvimento, onde nem sempre existe apoio oficial e financeiro. Mas ela acredita que a demanda por um jeito diferente de viver já chegou por aqui.

“Hoje em dia, os consumidores estão se identificando cada vez mais com a nossa marca. O mercado da moda mudou numa velocidade nunca vista antes. A fast fashion está abrindo caminho para algo novo. Esse novo momento tem o comportamento sustentável no seu âmago e está mudando os paradigmas sobre o conceito do que significa se vestir.”

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