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quinta-feira, 5 de setembro de 2019


Foi uma noite especial e de muitas homenagens a Maria de Jesus Bringelo, dona Dijé.  A quarta noite da vigésima-nona edição do Cine Ceará, dominada pelas mulheres, veiculou “Vozes da Floresta”. Um documentário que para a cineasta brasileira, Betse de Paula, assumiu grande e incômoda “atualidade e urgência”, já que o Governo Bolsonaro enfrenta, hoje, “clamor planetário contra uma Amazônia em Chamas”. 

Presentes a essa apresentação, as protagonistas do filme: a quebradeira de coco babaçu e liderança na Baixada Maranhense,  Rosenilde Costa, a Rosa, representante do Movimento de Quebradeiras do Côco do Babaçu, de Neta Serejo, do Movimento de Atingidos pela Base Espacial de Alcântara, e de Nice Machado, da Associação das Comunidades Negras e Quilombolas, todas vindas do Maranhão. “Foi um momento especial onde mostrarmos ao mundo a luta pelo território empreendido por mulheres indígenas, quilombolas, ribeirinhas e quebradeiras de coco do babaçu”, enfatizou. 

No debate de “Vozes da Floresta”, Betse de Paula contou que o filme nasceu de série de TV (“Guardiãs da Floresta”), para a qual ela registrou 400 horas de imagens colhidas em diversos Estados brasileiros. “Senti necessidade”— justificou — “de ampliar o alcance da série, que foi editada de forma didática, com narração em off e registro jornalístico televisivo.

Para gerar um documentário cinematográfico, Betse convidou o cineasta gaúcho Tyrell Spencer para sua equipe. Ele sagrou-se vencedor do Festival É Tudo Verdade 2017 com o longa-metragem “Cidades Fantasmas”. No ano seguinte, foram parceiros no júri do festival paulistano, trocaram ideias e ele se dispôs a enfrentar as 400 horas de material gravado e dele extrair um roteiro e um plano de edição. Com novo título (“Vozes da Floresta”, aos invés de “Guardiãs”), o documentário teve sua narrativa condensada em 97 minutos. E livre de “didatismo, recursos gráfico-explicativos e narração em off”. A montagem consumiu oito meses de trabalho.

O filme começa com a primeira advogada indígena, Joênia Wapichana, defendendo, no Supremo Tribunal Federal, a demarcação da Reserva Raposa do Sol. Primeiro em sua língua materna e, depois, em português. Seguem outras vozes femininas, em especial a de Sônia Guajajara, que nas últimas eleições foi candidata a vice em chapa do PSOL. O filme parte, então, para os locais onde vivem ribeirinhas que defendem as águas e terras banhadas por rios ameaçados, quebradeiras de coco do babaçu e quilombolas em luta permanente pela posse da terra de seus ancestrais. Em especial, aquelas que enfrentam projetos da complexidade da Base Espacial de Alcântara, responsável pelo deslocamento forçado de centenas de famílias.

Rosa esclareceu dúvidas do público, que compareceu ao debate de “Vozes da Floresta”, referentes a lei que permite às catadoras a busca de sua matéria-prima (o côco do babaçu) em fazendas alheias. “Como a planta é nativa”— explicou ela — “e as terras, em maior parte dos casos, griladas, há leis em alguns municípios maranhenses, que nos permitem buscar o côco para beneficiá-lo (seja como castanha comestível ou óleos medicinais”).

“Esta permissão”— acrescentou — “se dá em poucos municípios e a título precário”. Como o filme mostra, “somos obrigadas a passar por cercas de arame farpado com nossos pesados cestos. O que defendemos é a entrega dessas terras a nós, quilombolas, que estamos ali desde os tempos da escravidão. Nossos territórios foram apropriados por fazendeiros, que as grilaram”.

Neta Serejo, por sua vez, registrou o difícil momento vivido pelos quilombolas da região de Alcântara, no Maranhão, onde está instalada, há décadas, a Base Espacial. “Mesmo nos Governos Lula e Dilma, sensíveis à nossa causa e abertos ao diálogo, não conseguimos concretizar a titulagem de nossas terras”. Agora, “por decisão do Governo Bolsonaro, datada de 15 de março último, a Base Espacial será gerenciada em parceria com os EUA. Se já era difícil antes, agora será muito mais, pois o novo governo não esconde sua hostilidade aos quilombolas”.

Nice Machado também lembrou que “os governos ditos de esquerda mais prometeram, que cumpriram”. Mas lembra que “no campo educacional, muito fizeram. Há filhos de indígenas, de quebradeiras de côco e de quilombolas que conseguiram concluir seus cursos universitários”.

O Cine Ceará Festival Ibero-Americano de Cinema chega à 29ª edição nesta sexta-feira, 30. A programação ocorre até 6 de setembro, com exibição de mais de 40 títulos. Os ingressos de cada dia estarão disponíveis nas bilheterias, gratuitamente, uma hora antes do início de cada sessão. Para a abertura, serão distribuídos 200 ingressos individuais na véspera, dia 29, a partir das 10h30, na bilheteria do Cineteatro São Luiz.

Neste ano o festival bateu recorde de inscritos, recebendo mais de 1.271 filmes de 12 países.


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